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Notícias
Fonte: Site da Revista Carta Capital
Saúde
Planejamento Familiar omissão e
hipocrisia
A natalidade entre os pobres é um
dos grandes problemas do País, oculto por estatísticas e
perpetuado por ingenuidade ou falta de coragem
Por Drauzio Varella
O problema mais grave do País talvez seja o da natalidade entre
a população pobre. Numa época em que dispomos de métodos
eficazes de contracepção, o número de gestações indesejadas nas
classes mais desfavorecidas é tão exagerado que cabe perguntar:
por que razão os responsáveis pela elaboração de políticas
públicas fogem desse assunto como o diabo da cruz?
Além do descaso, só encontro duas explicações para a omissão:
ingenuidade ou falta de coragem para contrariar a Igreja.
A ingenuidade está na interpretação apressada das estatísticas
que mostram queda das taxas médias de natalidade: 2,4 filhos por
mulher no Censo de 2000, ante 6,2 em 1960. A distorção ao
analisar taxas média! s, entretanto, está em não perceber o que
acontece com determinadas subpopulações.
Resultado.
Jovens na Febem: muitos já chegaram ao mundo indesejados
Por exemplo, o Censo de 2000 mostrou que as mulheres com
formação universitária têm em média 1,4 filho (como nos países
desenvolvidos), enquanto as analfabetas têm 5,6 (a mesma taxa da
Namíbia). Mulheres que vivem em domicílios com renda per capita
acima de cinco salários mínimos têm em média 1,1 filho, enquanto
nas casas em que a renda é de até um quarto do salário mínimo
esse número aumenta para 4,6.
Em 2002, a proporção de bebês nascidos de mães menores de 20
anos, pobres em sua imensa maioria, foi de 20,75%. No Acre, esse
número chega a 27%; no Pará, 26,3%; e no Mato Grosso, 25,5%.
Cada criança assim nascida tira a mãe da escola e empobrece a
família dos avós, porque os homens de hoje dificilmente assumem
paternidades não desejadas.
Quem j&! aacute; pôs os pés numa cadeia sabe o quanto é difícil
encontrar um preso que tenha sido criado em companhia de um pai
trabalhador; a maioria esmagadora é de filhos de pais
desconhecidos, ausentes, mortos em tiroteios ou presidiários
como eles.
Esses bebês indesejados pelos pais vêm ao mundo como
conseqüência da ignorância e da dificuldade de acesso aos
métodos de contracepção. Embora no papel o programa brasileiro
de planejamento familiar seja considerado dos mais avançados, na
prática ele chega capenga à população de baixa renda.
As pílulas distribuídas nos postos de saúde são as mais baratas
do mercado (e que mais efeitos colaterais provocam); os
anticoncepcionais em adesivos a ser trocados apenas uma vez por
semana, ideais para vencer a indisciplina das adolescentes como
os estudos demonstram, n&atild! e;o estão disponíveis; os
dispositivos intra-uterinos (DIU) são virtualmente ausentes; e
camisinha à vontade, só no carnaval.
Conseguir vasectomia ou laqueadura de trompas pelo SUS, então, é
o verdadeiro parto da montanha. Há que marcar consulta com os
médicos, com a assistente social e com a psicóloga. São meses de
peregrinação pelos corredores dos hospitais públicos que mães ou
pais de cinco filhos são obrigados a fazer, para ouvir perguntas
como: “E se você se separar de sua esposa e casar com outra mais
jovem? E se seus filhos morrerem e você quiser outros?”
Na cartilha que o Ministério da Saúde distribui às gestantes,
está garantido o acesso à laqueadura a toda mulher com mais de
25 anos que tenha dois ou mais filhos, gratuitamente, pelo SUS.
Alguém sabe disso?
Que ideologia in! sana ou princípio religioso hipócrita
justifica o fato de nossas filhas atravessarem a adolescência
sem engravidar, enquanto as filhas dos mais pobres dão à luz aos
15 anos? Termos um ou dois filhos, no máximo, enquanto eles têm
o dobro ou o triplo?
A falta de recursos para programas abrangentes de planejamento
familiar é desculpa irresponsável! Sai muito mais caro abrir
escolas, hospitais, postos de saúde, servir merenda, dar
remédios e arranjar espaço físico para esse mundo de crianças.
E, mais tarde, construir uma cadeia atrás da outra para enjaular
os malcomportados.
Arquivo PDF:
planejamento_familiar.pdf
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